Novo Julgamento | István Bella
27/10/2010
Há um certo tempo venho me dedicando à leitura de alguns poetas húngaros. Atento às peculiaridades culturais e linguísticas, acabei me apaixonando pelo modo questionador que sutilmente eles desconstroem a tradição por meio de inversões interessantes que, de certo modo, assemelham-se e muito à poesia alemã do pós-guerra. É impossível não se lembrar do poema (que também nomeia o livro) Verteidigung der Wölfe (Defesa dos lobos) do poeta H. M. Enzensberger. O poema que apresento abaixo é de István Bella.
István Bella nasceu em 1940 em Székesfehérvar, antiga capital da Hungria. Bibliotecário, completou estudos de Língua e Literatura Húngaras na Universidade de Budapeste. Em 1965, tornou-se um dos editores do periódico Tiszta szívvel [Com Um Coração Puro]. Entre 1968 e 1970 viveu na Polónia, regressando em 1978, para ingressar no corpo editorial do semanário Élet és irodalom [Vida e Literatura]. A partir dos anos 70, começou a explorar um estilo mais informal envolvendo elipses e um discurso mais fragmentado, mantendo-se a musicalidade sempre presente. O poeta atribui poderes mágicos à linguagem, apreciando os arcaísmos, o folclore, os jogos de palavras, as aliterações e as palavras homônimas. Publicou uma dezena de livros de poesia bem como poemas para crianças. Foi-lhe atribuído o prêmio Attila József por duas vezes, em 1970 e em 1986.
Novo julgamento
[PERÚJRAFELVÉTEL]
Na questão entre Caim e Abel
até agora
ninguém
mencionou o cordeiro.
Nem sequer o Senhor!
O Juiz dos Juízes!
Porém, Ele viu o que se passou,
e poderia atestar
que Caim e Abel são permutáveis.
Abel podia ser Caim
e Caim podia ser Abel.
Mas o cordeiro,
esse é sempre o mesmo.
E o fumo sacrificial, também.
Proponho por isso o adiamento da história.
Avanço para um novo julgamento.
Mas quem deverá ser o juiz?
A vítima pode não julgar!
(Tradução portuguesa JLBG a partir da tradução inglesa de István Tótfalusi)
Dedico esse texto de sujeitos misturados à professora que me mostrou a dimensão dramática do ‘nada’.
Deus morreu e você nem bebeu essa cerveja, você nem pegou meu remédio para o medo…
… E disseram a ele que o homem era linguagem, e que tudo o que existia só existia enquanto linguagem. E mostraram a ele que pensar, enquanto ato de linguagem, era existir e, além disso, dar existência. Rezaram a ele que deus existia enquanto discurso e, que fora deste, não havia nada além de natureza em seu estado bruto. Sussurraram a ele que deus era feito do mesmo tecido de todas as ausências humanas, assim como o sonho, num plano ideal, ou o desejo, no plano das paixões possivelmente realizáveis; buracos na linguagem, tal um certo Deleuze. E afirmaram insistentemente que a morte era basicamente um equilíbrio de forças da natureza, pois esta, para existir enquanto tal precisava criar a si mesma para a si mesma consumir. E constataram, a partir disso, que o tempo na verdade não existia da forma que sempre se achou, pois o que realmente marcava a existência era a relação cíclica de criação e destruição. Eterno retorno nietzschiano. E pintaram a ele que quando o homem não mais quis imitar a natureza, passou a criar a sua natureza própria, autorreferencial, estilhaçada (conceitual, dizem), sem homem, sem deus, sem um status quo de “ser” determinado. O homem abandonou seu anseio à totalidade, o que resta hoje são formas soltas de um si mesmo [mergulhos nos detalhes mesquinhos cotidianos], pontos negros em telas brancas, que evidenciam, ainda que pareça absurda, a necessidade de se pensar nos dêiticos da subjetividade (antes era deus, hoje é a arte: o dêitico que nos promete a redenção). E comentaram com ele que a ‘feiura’ do conceitual existia porque procurava lançar às claras o substrato-abstrato do homem, seu não-ser, o choque do conceito com a carne, com o sentimento e com a razão. E concluíram com ele que a arte era resistência, único combate válido contra a morte: a vida poderia passar, mas a arte atravessaria vida e morte. E pensaram com ele que a melhor maneira de ser homem era ser arte, mesmo enquanto parte. E leram que a experiência era um meio de construir o sentido das coisas. E que o sentido era sua própria busca: caminho. E sentiram com ele que o amor era também um meio sutil da natureza de querer o sexo schopenhaueriano, a perpetuação da espécie, ou a satisfação do prazer, a manutenção do equilíbrio entre homem e animal que existiam neles, e no resto do mundo. E mesmo assim, esses fatos em nada diminuíam a grandeza e a beleza do amor, a maior de todas as máscaras. E sentiram desgraçadamente n’alma que o amor era o epitáfio da vida. E o contaminaram com a sensação do nada, ausência que empala a alma e disso ousaram pensar que talvez não houvesse pecado original, mas dor original. Dor que seria a marca do humano no homem: incompletude e finitude conscientes, já que o corpo [e sua metafísica química de neurotransmissores] trairia sempre qualquer promessa de eternidade. E foram finalizando dizendo que a vida era o treino para a morte e que a vida existia como um nobre impulso da natureza, pois cada um de nós seria parte de seu ciclo constantemente renovado. Desde o nascimento a natureza já havia nos dado o nosso fim: iludíamos-nos quando pensávamos que dormir era descansar, quando na verdade tratava-se do nosso primeiro treino para a morte. E feriram-lhe a vaidade ao dizer que em 100 anos seria como se ele nem tivesse existido. Horror, horror, horror. E ao se desesperarem foram dizendo sem nenhuma razão que o ‘penso, logo existo’ não era capaz de dar conta da existência, posto que pensada em sua totalidade, a existência abarcaria em si a não-existência, seu contrário, já que dialeticamente o não-existir ‘existe’ em nós e no outro enquanto potencialidade ‘de’. Pensar seria portanto viver. Existir em sua totalidade seria somente possível se pudéssemos unir o conceito de “penso, logo estou vivo” ao não-existir, que só seria determinado por uma segunda pessoa, pois somente o outro é capaz de autenticar nossa não-existência ‘existindo’ em nós. É o outro que vê nossa morte existir e que fecha a nossa existência na completude cíclica do tempo. E olharam ao redor desesperados e viram a maneira fala[o]ciosa que haviam definido a vida. E resolveram se esconder no banheiro levando nas mãos apenas Adília. E perceberam que tudo o que fora dito poderia ser quebrado, reformulado, trocado, negado. Já que a vida era uma construção de sentido, então um sentido estaria dentro de sua própria construção: a verdade era apenas uma questão de combinação, tal qual um poema; e a razão seria apenas mais uma forma de sentido. E vomitaram com ele como quem reza pedindo perdão ao tempo. A dor existia porque existia vida e todo o resto existia por causa da morte. Depois dessa conversa com tantos sujeitos indeterminados dentro de si, ele preferiu abrir mão da razão: desenhou asas em seu travesseiro [uma para cada sujeito indeterminado que dormia em seu peito] e foi dormir, não sem antes olhar as estrelas fluorescentes presas na parede, ele havia comprado várias, pois estavam em promoção. Naquela noite sonhou com porcos-espinhos. Ele era romântico. Fim.
Esquizofrenia, Saudades e Cinzas
10/08/2010
“E você é tão jovem”, disse alguma voz. “Na verdade, você se finge de velho”, disseram em seguida. “A questão não é essa. Ele é jovem, mas suas dores não. É como se ele tivesse nascido com esses machucados. A dor nunca é nova, ela só muda de corpo”, impôs a parte espiritualista tendenciosa que tento sempre ignorar. “Vocês não sabem o que sou, nem o que quero. São apenas partes”. A primeira voz ainda tentou contestar “Somos partes, mas será que as partes não dizem o todo?”. “Então quer dizer que você vai transpor a hermenêutica para a vida do rapaz? É isso? Não tente elevar o banal dessa forma, isso descaracteriza toda uma ciência”, disse o louco com pitadas ácidas de desprezo. “E o que é a vida se não a descaracterização e a (re)categorização do banal? Vestimos e desvestimos o mundo de sentidos… Vivemos para fugir da morte, a vida é um trabalho de sentido”, ironizou o filósofo de botequim que, por vezes, havia me encantado com suas falácias. “O problema é que ele tem muitas máscaras”, gracejou o suicida que, depois de um demorado silêncio acrescentou “talvez fosse melhor que ele destruísse todas elas”. “Que deus te perdoe por isso”, remendou o padre ninfomaníaco retirando o crucifixo das nádegas. “Se ele existir, aceitarei de bom grado. Melhor suportar deus a encontrar o nada, por mais semelhante que eles, por suposição, possam se parecer”. “Meus caros, vocês não se cansam de falar inutilidades? Não importa o que ele é, o que ele vai ser ou, ainda, se tem ou não máscaras. Isso não importa. Ele é quem dá sentido a si mesmo. Não existem verdades, eu não existo e nenhum de vocês existe”, disse outra voz. “Sinceramente, essa discussão não me agrada. Queria apenas contar a vocês algumas cenas que vi nesses últimos dias, posso?” “Se isso contribuir para seus sentidos, fale”, disse o louco. “Ok. Mas, por favor, não me interrompam!”. “Mas é você sempre que se interrompe…”
Encontrei a terra úmida, o sol descendo. O púrpuro-azulado envolvia a serra com seu frio. Na porta de casa estava mamãe esperando sorrindo. Havia algum tempo que eu não me deixava seduzir pelas cores do poente. É tão banal dizer isso, mas senti que havia alguma beleza nas pequenuras, embora soubesse da grandeza velada que o sol escondia… A distância modifica os sentidos.
Deitei-me no ócio como o cio da contemplação num beijar de abismos calados, vulgar mistura de tédio e vazio. Pedi alforria à cidade grande, queria me prender pra sempre naquele campo, no seio quente daquela terra que minha família me havia plantado, onde eu deixara escapar muito dos meus líquidos viscerais. Na terra, guardava eu alguns segredos de mãos sujas, bocas sangrando e almas doloridas. Lá tive meus amores, meus copos de vodka, cigarros aos treze anos, punhetas coletivas e alguma poesia pra adoçar nossos cus tão joviais e ainda assim sedentos.
“É nesse momento que você deveria se calar. Certas associações ou imagens são desnecessárias e demasiado apelativas. Você não precisa disso”, protestou o padre ninfomaníaco mais hipócrita do que nunca. “É devido a sua interpretação do mundo que vivemos, ainda, na barbárie”, ironizou o suicida.
Lembro-me de ter ido à igreja naquele sábado frio. Eu e toda minha família. Há felicidade no olhar trêmulo de minha mãe quando, sem qualquer recusa, eu me coloco disponível para esses eventos. De qualquer modo, duas cenas me chamaram atenção. A primeira foi quando o pai de um estuprador entrou pelo corredor central da igreja, sozinho, representando todos os pais do mundo pelos quais aquele povo iria orar. Levava em suas mãos água pura e cristalina. Embora eu não tivesse me rendido a essa exposição tão barata de fé, achei o exemplo provocativo [era uma mordida moral?]. Um pai que não se deixa abater pelas acusações contra o filho merece respeito, ainda mais quando oferece não apenas a face, mas todo o corpo para ser esbofeteado pelos olhares nada ingênuos daquele povo. Cena linda em tempos nos quais padres comem criancinhas.
“Novamente, apelação”, disse o padre ninfomaníaco. “Eu não me importo com o que você pensa. Achei a cena bela e poética. Mesmo que cercado de uma simbologia que visava algum interesse, aquele ato era belo; melhor ainda se o próprio filho entrasse junto com o pai e sua suposta vítima, o que nos daria um belo espetáculo de contradições unidas ao jarro de água pura e cristalina”, respondi a esse padre que também mora em mim.
Ao fim daquela celebração, uma homenagem aos pais foi feita. Banal, clichê e normal para uma instituição podre como a igreja. No entanto, a mais bela homenagem que pude ver foi quando um garoto chorando por não ter pai [pois este o abandorara], abraça seu sogro e agradece “obrigado por seu meu pai.”
Contanto assim tudo perde a cor. Eu me emociono com essas provas de carinho e afeto. “Você é um ridículo, meu caro. Era isso que queria nos contar? Ah, não creio que perdi tempo te ouvindo”, exclamou o louco. “Não sei, às vezes penso que o grande e sublime amor só existe na literatura, nas artes em geral e esse amor serve apenas para nos retirar da secura da realidade, na qual tudo é banal e ridículo”, defendeu o filósofo. “Um sorriso que não se espera, um convite que surge, um abraço. Há felicidade nas pequenuras. Triste é ser megalomaníaco e achar que ama”, rebateu o velho que parece ter ressurgido de minhas cinzas.
“É por ter essa visão já gasta da vida que eu sou velho?”, pergunto a todos eles. “Você é velho, mas não é maduro”, disse o padre. “Imaturo também não é, você é cru”, disse o louco. “E lembre-se, o cru é o mais próximo do pulsante”, encerrou a questão o filósofo barato que tanto admiro.
Daquele fim de semana que passei com meus pais, só me resta a saudade de não tê-los sempre por perto. Queria poder morar com eles novamente. Meu pai, minha mãe, eles me formam. Sou a união de duas carnes e meu amor por eles é tudo o que sou [ e o que me resta em noites que a cama fria é a imagem da minha solidão]. “Mãe e pai formam um sentimento que transcende tempo, espaço, matéria. Mãe e pai são aquilo que existe e que em mim vive. O que muitos chamam deus, eu chamo de pais”, disse o suicida ateu.
E pela primeira vez eu concordei com ele. “Então é por isso que você sente dor: você vive e só tem seus pais. Há os amigos, mas eles vivem em função de outras coisas. No fundo, você é um egoísta dramático e teatral. E isso te delicia tanto de modo que você basta a si mesmo. Você é sua própria solidão. Você se dói por ‘ser-se’ em demasia.”
“Isso caminha para uma subjetividade vazia de propósitos estéticos. Por favor, paremos por aqui”, disse o poeta em seu raro lapso de bom senso.
(des)ode ao nada
28/07/2010
Há um tempo o nada veio e comigo ficou. Durante uma madrugada, na qual eu senti o nada em sonho, eu acordei, liguei o computador e escrevi como quem vomita ou quem tenta colocar para fora um câncer que lhe corrói as entranhas.” “A (des) ode ao nada” foi o que surgiu.
Ainda não está finalizada. É apenas um esboço, é apenas o medo do nada.
(DES) ODE AO NADA
Nada, nada, nada. Vazio.
o sim e seu avesso, não, não é o não, é mais que o medo.
ode ao vazio, ao nada, ao vazio do nada vazio nonada
chão, chão, chão, é claro que é o não que não é nada.
Tragam-me as metafísicas, oh, tragam todas.
(e todo chocolates que puderes, meu deus)
preciso amarrar-me em alguma metafísica.
O nada me tira a noite, o suspiro, a vida
mais nada, nada, nada, nada e não chegas a compor um poema
(o nada grita entre minhas paredes. Dá cá esse chocolate, nonada)
Oh, nada, como pode me destruir
minuto a minuto sem querer dizer-me o sim
o sim que é dito ao não, não, não. É nada,
nada é, é, é que não acaba, mais nada.
Pare de sussurrar em meu ouvido o som do abismo
Oh, nada, nada, nada. Passo a vida a significar o mundo
Mas você, nada, você não posso significar, pois você não é e é
Não é, não é, não é nada sendo apenas nada.
Oh, nada, não posso te criar, recriar, mas posso.
você não é nada e é nada, então posso e não posso.
quais suas cores, nada? Nada, qual é a sua face? Nada.
quais são seus desejos, nada? Como é que não pode pulsar, nada?
Crie em mim sua ausência, nada. E eu te darei um sentido, além do nada.
mas então você não o será, pois é nada. Nada, nada. Você é um labirinto?
todas as palavras ao seu redor carregam seu duplo nada, nada, nada ou eu já estou criando?
de que nada você é feito, nada? Qual a pele do nada, qual a morte do nada, nada o que é?
Diga-me algo, nada.
Oh, sinto (via criação, meu único meio) que você talvez seja a ausência de ser.
mas NADA, como ser a ausência de ser? Se você é ausência, logo, não pode ser um não ser que é não sendo. Oh, nada. Mesmo que adote a ti uma visão orientalista aceitadora do sim e não que se beijam e não se anulam, ainda assim será mais uma visão do nada. Qual será a certa? Qual não será o nada ou o será, mais nada?
nada, nada. Somente o nada.
Todas as religiões, o Nada.
Um deus criou o mundo pela palavra,
um deus que disse, disse, ele disse
O inominável deus, o deus que é Deus e não tem nome
mas se diz como sendo aquele que é. Mas é o que é? O que é?
como pode um deus, um Deus como pode
dizer o mundo e não dizer a si mesmo?
Ele é o verbo. Que verbo? Ser?
O nada também é um ser, se eu digo nada é.
O nada se diz, sem nada dizer.
E o deus, o que diz?
se o homem deu nome aos seres, se deus,
o homem, criou os seres e deu,
o homem, seu significado,
quem nomeou deus e deu a ele existência?
Nada vem do nada e nada pode vir do nada, meu deus,
nem nada, nem deus.
se
o sentido da vida
é dar sentido a vida
e a gente nada nada nada
e chega: nada.
e chega: e é arte
um nada coberto de estética
desmistificando
o nada
é
tudo
arte
como a morte
e a ausência de si
por mais que haja flores
ali está você, eu
nós no nosso instante de nada
ali está você e seu nunca
e seu sempre.
e aqui estou eu,
enaltecendo e desconstruindo: nada.
tentando resitir ao fim, ao nada
a arte é fuga do nada
[inevitável, nada]
nada, nada, nada. vazio: escuro frio.
o sim e seu avesso, não, não é o não, é mais que o medo:
é não ficar,
é não ser arte,
é ser nada,
.
[...]
A cor do eterno
24/07/2010
E nesses ásperos acordes que o vento deixa entrar pela janela, entremeando notas soltas às lacunas que me formam, vejo um sol que se retira e, à contraluz de um arrepio, descansa suas cores.
Penso fechar os olhos, descansar minhas ausências, eternizar-me no poente, quando o abóbora rosado crava seu brilho nas entranhas da terra e o escuro porvir se anuncia. É nesse instante que vejo o eterno. A eternidade é a escuridão que nos absorve enquanto cor, engole nossa vida, levando-nos ao nada. Mas talvez a eternidade também seja branca, sutil resultado da união de todas as cores. O branco reflete nossas cores para o infinito, perdendo-nos no ar como pó. A eternidade é preto e branco: engole e dissipa: absorve e reflete, numa orgia cíclica.
Um velho músico que toca seu sax diz por meio de suas notas, que “a eternidade é uma música sem melodia, um ritmo que se repete, ou ainda, uma semibreve nua, que pulsa despida de realidade. Um não sem sim. A eternidade é a síntese do preto no branco em seu contrário musical”.
No outro lado da rua, algumas crianças correm. Lembro-me de retirar a roupa da máquina e do cartão do banco que penso não ter recebido.
[Nesse momento, o sujeito reflexionante hegeliano dá risadas descontroladas e mordisca o chocolate de um velho Upanishad, que diz a ele: “Tu és mulher. Tu és homem. És o rapaz e também a donzela. Tu, como um velho, te apoia em cajado... Tu és o pássaro azul-escuro e o verde de olhos vermelhos... Tu és as estações e os mares”. Mas o sujeito reflexionante passa a rodopiar com mais força, não acredita no velho que conclui: “Tu és aquilo.” E assim, o sujeito se dissolve.]
Tudo está tão colorido, apesar da noite.
Volto a contemplar a morte do sol, que é tranquila, já que não é para sempre. Não a vejo, mas tendo-a na memória, percebo que sua cor já está gasta em mim.
Faço dormir o velho e o músico, fecho a janela. A roupa foi pendurada, as crianças entraram e agora restam o silêncio, o preto e o branco: misturo-me a eles e sinto a eternidade…
E a eternidade me é interrompida, pois lembrei que preciso descer do meu apartamento para ver se meu cartão está na caixa do correio. E assim, sinto mais uma vez as notas doces da realidade em suas cores mais vivas entremeando minhas lacunas.
Acho que vai chover. “Eis a precipitação do cinza”, solfeja o músico que acorda do meu peito. “Vai dormir, outro dia continuamos”, reprimo-o.
E retorno ao meu apartamento para descansar, dessa vez, as minhas cores.
P.S.: O cartão não chegou. Segunda-feira, ligarei para o banco.
Goodbye Blue Monday
20/07/2010
Náufrago: lembranças de ontem.
O dia em sua luz azulada, meus erros misturados, notícias de morte, livros em promoção, o choro de uma menina que, atrás de mim, apela aos santos ou a algum deus que paira no ar [estático e mudo], elogios recebidos no tecer da pele, olhares ao avesso, desejos silenciosos: um porre de sexo vil, um cu do acaso, metade de uma solidão franco-atiradora: invasiva e insistente, vaidades forjadas, espelhos e espaços podres, risadas malditas, almoço com gosto de brócolis gelado e, novamente, o sol queimando minhas ideias. A mesma rua com buzinas desenhadas em alta velocidade, um braço tatuado que me oferece a chave de um par de olhos que nunca entrarei. Eis os pedaços do hoje que, escorregando pelas horas, dão-me a sensação daquilo que fora perdido pelos orifícios da tão gasta peneira do tempo.
Há um ano, inaugurava em mim muitas das lacunas que hoje se tornaram medo do nada, ausências contempladas: “Saudade”, dizem… E o nada veio existir entre meus vazios. Esse nada que nem existe, mas que é um arrepio do futuro, uma previsão certa e fria. Os pedaços que anuncio hoje estarão perdidos amanhã, assim como minhas palavras, minhas roupas esquecidas no cesto ou o olhar do cobrador que me rodará a catraca. Tudo sempre tão útil, mas basta que algumas horas passem pra que tudo novamente se perca. O pó que pairava no ar [deus] assenta-se sobre os passos que já não existem mais.
É que hoje o azul me deixou nostálgico: trágico, agridoce e talvez romântico. O que era pra ser felicidade se tornou um riso banguelo.
“– Dê-me cá essa flor azul, quero copular com o infinito”, digo a um poeta imaginado. É possível que assim, ao menos enquanto papel, eu possa dar conta de apreender tudo que vejo e sinto, sem que nada se escape pelas entranhas do tempo. Sem que nada se afunde pelas beiradas esquecidas da realidade, sem que eu precise me lembrar sempre que minhas lacunas apenas projetam as ausências que, lá fora, o azul reproduz calado.
“Adeus Segunda-Feira blue”.
Escrito inaugural
19/07/2010
Pretendo expor aqui algumas críticas sobre política, literatura, cultura etc. Obviamente, manter um blog é uma das mais banais vaidades que temos nos tempos atuais. Quase todos os que existem por ai são ruins, exploram somente a facilidade de ser notado, tarefa essencial do mundo virtual. Não garanto que aqui haverá alguma qualidade. As melhores coisas de mim, meus melhores pensamentos, ideias etc. eu guardo para mim. Nesse ponto, minha vaidade é das antigas e, por demais, egoísta. Espero que gostem desse espaço. Se não gostarem, sintam-se abraçados, pois eu também costumo não gostar das coisas que faço.
Para inaugurar esse blog, postarei um poema, umas linhas irregulares, pobres. Escolhi um que não fosse meu preferido. Uma poeta e mui amiga [e que com certeza falarei mais adiante, uma vez que sua obra é notável no cenário da poesia brasileira atual] disse que é um poema muito trabalhado e que ressoa muito dessa contemporaneidade bandida, a qual servimos descontentes. Eu acho que ela está errada, pois é minha amiga e, talvez, não quisesse ser sincera. De qualquer modo, doa a quem doer, eis como me apresento.
Espelho
cobro do espaço
seu rastejo sobre os reflexos de minhas partes.
Através do prisma que o sol encerra
[e que dá a mim outros contornos]
pela fonte de palavras
que no céu arrastam cores, reflito.
peço pro relógio
recortar as horas
do meu passado
redistribuí-las
por toda [e la]nave[va]
[em nossos forjados cenários
maltrapilhos suspirando rinocerontes]
cuja neve
no pensamento
insiste,
mas a razão envenena o
hálito dessa manhã
cuja face eu abri
os olhos da projeção
no espelho em páginas de poeiras,
aquilo d’onde deveria reproduzir minha vida
porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte…
de repente
por um instante
descobri
a profundidade
cujo tamanho [história]
altura e
largura
é esfaqueada
por outra dimensão
[na qual meus recortes]
meus rastejos,
meus contornos,
meus outros,
[r4, para outras bestas matemáticas]
minha memória
e linguagem
fizeram existir
e tão somente
foram atravessados
por ela, ele, todos
[quem mata nem é D'us ou os avessos, mas o tempo forjado em espelhos cegos]
relativizados
fluindo para uma constância sem fim,
espalhando no espaço de um espelho
simultaneamente, todos meus mins.
[E no fim, o mar revolto dá lugar à cena, aos diretores e câmeras. Basta uma sala de espelhos, um risco de vida, e voltamos ao palco do tempo].